quinta-feira, 1 de abril de 2010

Esperança

O calor do meu abraço, sente-o quem nos meus braços não pertence.
A tua memória, aos poucos se desvanece,
Devagar.
Como uma tempestade que a pouco e pouco se afasta.
E sinto-o na nuvem que lentamente se desloca acima de mim.
Na chuva que morosamente cai num dia de Primavera.
No roçagar da minha caneta no papel,
A cada frase,
A cada palavra,
A cada letra.
Já não falta muito.

terça-feira, 23 de março de 2010

A Dor

As horas passam e o dia transforma-se em noite, vivo.
Vivo pois finalmente aprendi a fazê-lo, aprendi a deixar o meu futuro nas mãos do destino e assim aguardo, silenciosamente, discretamente. Não sei o que me reservou ele, não sei se melhores dias virão ou se o melhor já passou, apenas o saberei se o aguardar.
Se, há uns tempos atrás, me tivessem dito que a dor por vezes poderia ser benéfica, ter-me-ia rido e ignorado essa pobre alma, provavelmente pensaria que quem diz tal coisa nunca na vida experienciou a verdadeira dor. Porém, assim o é. Existem várias formas de sentir dor, assim como várias fases em que a experimentamos.
A primeira dor que se apodera de nós é talvez a que mais dói. Somos apanhados desprevenidos, por dentro abre-se uma ferida que, ao ser tocada, lateja mais e mais, a nossa mente virgem nada pode contra tal adversário. Os dias passam e ela lá persiste, com uma força tal que se apodera de todo o nosso ser e passamos a viver em sua função.
O tempo passa. Perdão, o Tempo.
E assim surge uma segunda dor, que ao ver-se confrontada com a sabedoria e o poder da experiência e da maturidade reconhece que encontrou um adversário à altura. É essa mesma experiência que pega na dor, molda-a conforme dita o raciocínio, e nela vê uma razão para sorrir. A este processo se chama mentalização.
No entanto, dentro de nós, repousa sorrateira e imponentemente um grande aliado da dor: o coração. É esse maldito que, por mais que nos esforcemos a ignorar, acaba sempre por arranjar uma forma de controlar o raciocínio, a razão, a lógica, e nos domina afincadamente, sem que possamos fazer seja o que for para o combater. Assim que nasce um novo dia, o meu parece embalar-se num sono profundo, para preguiçosamente despertar mal o sol se esconde para dar lugar à noite.
Como dói, a noite.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Lisboa ao entardecer


(...) Imagino a felicidade no teu rosto e sorrio. De mãos dadas, ora afastadas ora mais próximas, passeamos à beira do Tejo e estou completa. Vejo os últimos raios de sol, avermelhados, a reflectirem-se nos teus olhos e não resisto a tomar-te nos braços e a beijar-te apaixonadamente, enquanto que, com todo o teu amor, me apertas contra o teu corpo e correspondes ao meu beijo, os olhos fechados. Passas, docemente, com uma mão pela minha cara e com o polegar demoras-te nos meus lábios, enquanto me olhas fixamente, pergunto-me o que verás. Pelo teu sorriso exausto e pela lágrima que agora escorre pelo teu rosto, sei automaticamente que sentes o mesmo que eu. No horizonte o sol despede-se para dar lugar à noite, rodeio-te com os meus braços, por trás, e assim ficamos a olhá-lo, o aroma dos teus cabelos a inundar-me os sentidos, o calor da tua pele contra os meus lábios. És a minha vida.


domingo, 21 de fevereiro de 2010

Pensamentos nocturnos

São 2 da manhã e mais uma vez o sono me abandonou. Numa mão tenho a caneta com que te escrevo, na outra o cigarro habitual que me faz companhia nas noites de solidão e que teima em arder, como que a recordar-me de que lá fora o tempo passa, a vida continua. No escuro do meu quarto ressoa o tom de angústia com que o Jeff Buckley canta "Hallelujah", sempre me intrigou este título. Uma expressão que lembra esperança, que indica que algo de divino aconteceu, e no entanto todo o conteúdo desta composição indica o contrário, aliando-se à melancolia transmitida pela guitarra. O que farás tu neste momento? Paro por um segundo para pensar no quão ridículo soa quando me dirijo a ti, como que se esperasse resposta. Sim, é mais um texto sobre ti, sobre a falta que me fazes.
De onde me encontro vejo a minha bandeira, solitária na parede do meu quarto, a recordar-me do quão sozinha estou, a milhares de quilómetros de distância de ti. Em tempos a tua bandeira fazia-lhe companhia, e ali permaneceram elas lado a lado, e o teu amor pertencia-me.
Recordo-te esta noite, e em todas as outras. Pergunto-me se sentirás a minha falta, se amaldiçoas o dia em que me viste partir, magoada, sabendo que jamais voltaria. Sim, ainda sinto no meu peito a humilhação e a frustração pelas quais me fizeste passar. Não, acho que não serei capaz de te perdoar. Odeio que permaneças dentro de mim dia e noite, odeio que não seja capaz de te apagar da minha mente. Odeio-te por todo o amor que me deste, para mais tarde o vires a retirar. Odeio este estado de melancolia permanente em que me embalei desde o dia em que te foste embora, contigo uma parte de mim morreu.
E no entanto, vivo por ti.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Carta a I. (a última)

Queria que soubesses que estou bem. Tal como o Noah em tempos disse a Allie, "Já não tenho ressentimentos, pois sei que o que tivemos foi real". Quis que esta carta fosse especial, pois nunca a lerás. Nunca te será entregue e nunca terás a possibilidade de a guardar, com desprezo, no fundo da tua gaveta onde se misturaria com todas as outras que te enviei, já esquecidas.
Tomei a derradeira decisão de te eliminar do meu pensamento. Por vezes é doloroso e dou por mim perdida nas nossas memórias e na semana que mudou a minha vida para sempre, mas finalmente encontrei o meu caminho. E o meu caminho, ao contrário do que diz a sabedoria popular, não vai dar a Roma.
Sei que seguiste com a tua vida, sei que estás bem. Também sei que chegará o dia em que não te lembrarás mais do meu nome, de onde venho, ou das promessas que fizemos. Eu, pelo contrário, sei nunca vir a atingir esse dia, pois a tua memória permanecerá para sempre guardada em mim.
De noite, quando o silêncio se instala no meu quarto e da janela observo as luzes da cidade à distância, não penso em ti. Quando me sento à beira do Tejo e acendo um cigarro pensativo, não sinto a tua falta. Se subo e desço as colinas de Lisboa, à procura de uma resposta às minhas perguntas, o teu nome não ecoa na minha mente. Deixei de viver em tua função, o meu coração finalmente pode descansar. Se por acaso o meu nome surgir por entre palavras, não te iludas, já não te pertenço.
Lembras-te da quantidade de vezes em que amaldiçoámos a distância que nos separava? É agora essa mesma distância que me conforta, que me dá força e vontade para seguir em frente. Como diz a Norah Jones, "Se nunca voltares, permanecerás uma memória distante"... Sei que nunca voltarás, a distância encarregar-se-á do resto. O tempo apagará a dor e limpará as lágrimas derramadas, transformando tudo isso em algo que nos fortificou perante a vida. Uma lição da qual retirámos um pequeno pedaço de esperança, agora já dissipada.
Sinto que ficou tanto por dizer, mas já não importa. Esqueci os teus beijos, esqueci o teu sorriso perante a minha presença, os teus olhos já não me assombram. Guardarei com carinho o que me deste, mas jamais lhes pegarei.
Já não te amo, recordo-te.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Nostalgia vs Melancolia

Penso que estou em casa, quando na verdade mal comecei a minha viagem. Estas ruas enchem-me de um desespero que tento passar para o papel. Chamam-lhe nostalgia, para mim não passa de melancolia. Sinto-me pequena ao pé destas fachadas imponentes, a música que paira no ar mistura-se com os meus pensamentos. Quanto tempo mais ficarei aqui? Numa cidade que me chama sua filha mas não me dá o amor por que anseio. Penso no que estará a faltar, medito. Sei a resposta mas engano-me numa teia de mentiras e negações que sei serem necessárias. Atrevo-me a dizer estas palavras...? Faltas tu. Do sitio onde me encontro vejo os raios de luz a sobreporem-se às fachadas altivas dos edifícios, já não sei quem sou sem as suas sombras que me acolhem. Essa luz penetra na sombra que me abraça, como uma promessa de que dias melhores virão. Levanto-me com uma mão a proteger os olhos e recolho-me na sombra mais próxima.

Perdida em Roma

Depois de um voo de apenas 30 minutos, tinha finalmente acordado para a realidade: Já não me encontrava a teu lado. Na minha mente tudo parecia um remoinho de ideias, no meu peito, de emoções. Vi-me sozinha naquela noite, numa cidade que me era tudo e não me era nada, que fora palco dos meus sonhos e desejos nunca concretizados. As horas passavam, os aviões lá fora partiam e chegavam e eu sentia-me fatigada, prestes a quebrar. Quando finalmente tomei conhecimento do que deveria fazer a partir dali, respirei de alivio, mas não fora por isso que me senti menos nervosa. Vi-me num autocarro escuro, que andava por entre estradas e mais estradas, o aeroporto cada vez mais longe, o centro da cidade a aproximar-se. Ao meu lado encontravam-se dois indivíduos, quem sabe na mesma situação que eu. O motorista tentava acalmar-me, apesar da barreira linguística que nos separava. Foi apenas quando abri a porta do quarto que me iria abrigar naquela noite que o meu coração decidiu também ele descansar. Lembro-me de me ter sentado naquela cama enorme, aquele silêncio ensurdecedor de hotel a zumbir nos meus ouvidos, e de me ter deixado deitar, fatigada. Lembro-me de ter pensado que, não havia 4 horas, estava ao teu lado. A pegar-te na mão. A beijar os teus lábios e as tuas lágrimas. Chorei, silenciosamente. Estendi o braço de forma a chegar ao meu maço de tabaco, aquele que tu me tinhas comprado, que tu tinhas escolhido para mim no dia anterior, quando ainda me pertencias realisticamente. Acendi um e vi o fumo a rodopiar em direcção ao nada, tal e qual os meus pensamentos. Sabia que o dia seguinte iria ser igualmente fatigante, portanto deitei-me, e foi a pensar em ti, a ouvir as nossas músicas, que adormeci. Acordei mal o sol nasceu e saí para o dia nublado. Estava frio e as minhas mãos geladas. Mal pareciam aquelas mesmas mãos que te tinham amado. De novo o mesmo autocarro, a mesma simpatia do motorista, o mesmo aeroporto. Uma devolução de bilhete, um avião que levantou voo, um choro escondido. Olho pela janela, e reconheço a imensa massa de metal vermelho, que se estende ao longo do Tejo. Lisboa. Portugal.